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terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Recordando Luiz Antonio Millecco Filho


CELSO MARTINS
Do Rio de Janeiro


Lembro-me muito bem daquela tarde de novembro de 1999. Ao perceber no metrô que me trazia de um bazar espírita de antiguidades vendidas para a compra de comida e roupa para os pobres do Rio de Janeiro, a presença de um cego que iria saltar comigo na Estação da Central do Brasil, dele me aproximo e murmuro:
“- Maninho, em que posso ser-lhe útil?”
Espantado, o rapaz de seus 45 anos de idade me informa que iria tomar um ônibus para Duque de Caxias na rodoviária perto da ferrovia onde eu embarcaria em um trem para Cascadura. Assim, com cuidado subimos dois lances de escadas de um mármore encardido de tanto serem os degraus pisados pelos operários que por ali passavam todos os dias, chovesse ou fizesse sol.
No trajeto de uns 5 a 8 minutos, indaguei:
“- Paulo (era o seu nome), você conhece o Millecco?”  
“- Claro que conheço e muito!Foi meu colega no curso de contabilidade no Instituto Benjamin Constant. Quem no Brasil não conhece o Millecco?”
A mesma coisa ocorreu anos antes quando, ao dar aulas de Física em uma escola do Estado do Rio, ao perguntar: “- Renato, você conhece o Millecco?” E o cego exclamou:
“- Claro, professor, claro! Quem não conhece, no Brasil, o Millecco?”
Pois é, no sábado de carnaval de 2005, voltou ao Grande Além aquele deficiente visual que, com o auxílio do Marcus Vinícius (também privado da visão) e do Mal, Mário Travassos, criou a SPLEB, ou seja, a Sociedade Pró-Livro Espírita em Braille, creio que em 1953... Ele era musicoterapeuta e combatia com amor intenso o aborto. Conheci Millecco quando tinha os cabelos negros. E pela Rádio Rio de Janeiro sempre o ouvia por volta das 11 da manhã de todo domingo.
Com vasto conhecer da Doutrina Espírita e sobre os mais variados assuntos, este cego de nascença casou-se com sua professora de Braille, dona Iza, dando-lhe um filho, que é ligado a uma banda musical. Com seu violão, o Millecco era a alegria em pessoa. Musicoterapeuta, conhecia o Inglês e o Esperanto. Viúvo, casou-se com a querida Maria de Fátima Rossi, do Grupo Espírita Redenção, do Bairro de Andaraí, zona norte da cidade do Rio de Janeiro.
Flamenguista, suas palestras eram voz vibrante e clara em diversos ambientes onde se fizesse campanha pela Paz Mundial ou contra o aborto provocado, tendo o cuidado de não atirar o complexo de culpa na mulher que o praticara, ou seja, sempre andou a aumentar a auto-estima do semelhante, tanto que criou e manteve ao fone um centro de atendimento para consolar os que pensam dar cabo da vida. E brejeiro dizia que conhecia uma espírita tão fiel ao Codificador, mas tão fiel que fazia tricô usando sempre a lã Kardec.
Millecco, até à vista!

JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
Diretor Responsável: Hugo Gonçalves Ano 53 Nº 623 Janeiro de 2006

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Chico Xavier aos 34 anos


Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier (foto) e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever.
Terminando, disse, apenas, à família assustada: –
“Não fui eu. Alguém me empurrava a mão”.
Assim se inicia uma reportagem histórica assinada por David Nasser, uma das glórias do jornalismo brasileiro, publicada na revista “O Cruzeiro” de 12 de agosto de 1944, que recuperamos por intermédio da internet graças ao site www.memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro. Chico Xavier contava na ocasião 34 anos de idade e viveria até meados de 2002, ano em que desencarnou no mesmo dia em que a seleção do Brasil se sagrou pentacampeã de futebol.
Por ocasião da reportagem, fazia 12 anos que Chico havia publicado sua primeira obra, “Parnaso de Além Túmulo”, e o total de sua produção psicográfica não passava de 20 livros.
“Os Mensageiros”, de André Luiz, fora a última obra publicada até então, à qual se seguiram, de 1945 a 2002, quase 400 títulos. Iniciara-se então o célebre processo movido por familiares do escritor Humberto de Campos, que passou, a partir do ano seguinte, a valer-se de um pseudônimo (Irmão X) para assinar suas obras.
O processo, que trouxe muitas preocupações e acerbos sofrimentos ao médium de Pedro Leopoldo, fez com que seu nome e seu trabalho ganhassem dimensão nacional, numa época em que a televisão não fazia ainda parte dos meios de comunicação do País.

Chico Xavier, detetive do Além

Texto de David Nasser
e foto de Jean Manzon


Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte.
O moço se chamava Francisco Cândido Xavier (foto) e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever.
Terminando, disse, apenas, à família assustada: “Não fui eu. Alguém me empurrava a mão”.
Desce esse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossego e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço profeta.
Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fosse só isto. Era mais, muito mais.
Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens.
O representante da editora insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.
As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.
Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo.
Não nos interessa, embora pareça estranho, o médium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados – ou não psicografados – já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se ele é inocente ou culpado dirão os juízes.
Se ele é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.
Se os espíritos nos ouvem, eles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sobre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com este pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier. Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extraterrena mostrar-se absolutamente complicado. Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura: “É Chico Xavier um impostor ou não é?” E dirá: – “Não conseguiram desvendar o mistério!”
Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segredo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura. A frase de uma vizinha define melhor: – “Sabe, moço? O Chico é um amor”. Justamente desse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo.
Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.
O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é datilógrafo. O motorista não quer entrar. – “Aí, não. Até os zebus são atuados”. O diretor, Rômulo, está na horta, sozinho.
Ele nos dará, talvez, esclarecimentos sobre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu “não” é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dele, diretor, dar umas férias a Chico. – “O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico”. Apresentadas as despedidas, ele adverte: – “Não creio que será possível aos senhores um encontro com ele. Creio que vão esperar até sexta-feira”.
Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. –
“Onde fica a casa do Chico Xavier?”
O menino aponta a igreja. –
“Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família”. Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: ele.
Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Ele só podia ser ele. –
“Minha irmã foi curada por ele”.
Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vezes vem passar semanas com o médium.
– “Gosto de falar com ele. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, “O homem, esse desconhecido” e ele não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para ele. Seu único amor é o espiritismo”.
Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos.
Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.
Chico parece ser um bom sujeito.
Suas ações, mesmo fora do terreno religioso propriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos.
Vão dizer os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim.
Sei de um que não teve dúvida em abandonar a esposa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.
– “Na rua, entre seus irmãos de seita, – disse-me um dos filhos – ele se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.
Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa.
Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Somente o Chico vai lá, fazer companhia ao garoto, às vezes uma noite inteira.
– Chico!
– Que é meu senhor?
– Você lê muito?
– Não. Só revistas e jornais.
– O outro disse...
– Disse o quê?
– Nada.
Ele nos olha, surpreso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:
– Você, não pensa em se casar, Chico?
– Eu, casar?
(Dá uma gargalhada)
– Claro que não.
– Não namora?
– Nunca.
– Por quê?
– Não há razões.
Não gosto.
Tenho outras preocupações.
Ora, eu namorando... Tinha graça...
– Chico...
– Que é?
– É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?
– Ele disse pra eu ir à igreja discutir.
Não é lugar próprio.
– Você gosta do padre, Chico? E ele, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:
– Ué, eu gosto do padre, mas ele não gosta de mim.
– Chico...
– Que é?
– Onde estão suas mensagens?
– Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.
– Você vai ao Rio?
– Até agora, nada resolvemos.
Possivelmente, mandarei uma procuração.
Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde ele recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emmanuel, guia de Chico, lá estava.
Quem é Emmanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sobre a Terra, naqueles tempos de há dois mil anos.
– Ele dita?
– Vou psicografando as mensagens.
Há outros médiuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.
– Chico...
– Que é?
– Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?
– Homens célebres?
– Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?
– Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emmanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a Terra. Ele disse: – “A vitória da força é fictícia”.
O cavalheiro do Rio acode:
– E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Ele disse, categoricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.
Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal.
A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro.
Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas.
Depois, sua irmã solteira faz o café, que ele toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou.
Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina.
Volta para almoçar às onze horas.
O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão. Sua vida é frugal. – “Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados”.
– Peregrinos?
– Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consolo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite. –
“Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando...”
Evito atender, mesmo constrangido.
Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquele Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...
– Impossível a viagem de volta...
– Impossível? Não, não é impossível.
Eu voltarei a ser aquele sossegado Chico. Não tenha dúvida.
O repórter imagina, a essa altura, que ele acredita na possibilidade de suas comunicações com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de cor negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.
– “Trago para o senhor, Seu Chico...”
Ele segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Ele sorri e devolve o menino à mãe.
– Meu sobrinho – explica o profeta Chico – é nervoso e fica deste jeito. Sabe por quê? Ele sofre de paralisia infantil.
– Não tratam dele?
– Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, somente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.
Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei por que os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra contra a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Allan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.
– Quem toca pandeiro nesta casa?
Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é ele.
– Alguns espíritos?
O sorriso beatífico desaparece.
– Os espíritos não tocam pandeiro.
Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade.
Será orgulho pela celebridade que ele deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dele, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu subitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz. A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Ele não se importa. Não procura convencer ninguém à força de seu estranho e discutido poder.
Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. – “Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!” E não deu mais importância ao caso.
Até à volta, sereno Chico. De todas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio.
Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo:
– “Castigo, sim, nhô moço...
Antão, ele telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?”
Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: –
“Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?”
Ele, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que ele não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fosse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.
(Reportagem publicada originalmente em “O Cruzeiro” de 12 de agosto de 1944, recuperada via internet por meio do site www.memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro. Chico Xavier contava na ocasião 34 anos de idade. Sua desencarnação se deu em 2002, no dia em que o Brasil se sagrou pentacampeão de futebol ao vencer a seleção da Alemanha por 2 a 0.)

O IMORTAL
JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Chico Xavier, 100 anos


O povo brasileiro e os espíritas de todo o mundo reverenciam no centenário de seu nascimento
o apóstolo do amor e da caridade e o médium mais importante da história do Espiritismo

MARCELO BORELA DE
OLIVEIRA
mbo_imortal@yahoo.com.br
De Londrina

Este ano (2010) ficará marcado pelas sucessivas homenagens que o povo brasileiro prestará ao saudoso médium Francisco Cândido Xavier no ano do centenário de seu nascimento.
Nascido no dia 2 de abril de 1910 e batizado com o nome de Francisco de Paula Cândido, Chico Xavier notabilizou-se não só como médium e um dos maiores divulgadores da história do Espiritismo, mas como um verdadeiro apóstolo do amor e da caridade.
Natural de Pedro Leopoldo, região metropolitana de Belo Horizonte, seus pais chamavam-se Maria João de Deus e João Cândido Xavier. Educado na fé católica, Chico teve seu primeiro contato com a Doutrina Espírita em 1927, por ocasião de um processo obsessivo que acometeu uma de suas irmãs.
Passou então a estudar e a desenvolver suas faculdades mediúnicas, que, conforme ele mesmo relatou em nota no livro Parnaso de Além-Túmulo, somente ganharam maior clareza no final de 1931.
Seu nome de batismo lhe fora dado em homenagem ao santo do dia de seu nascimento, mas, logo que rompeu com o Catolicismo e escreveu seus primeiros livros, foi substituído pelo nome de Francisco Cândido Xavier, mudança essa oficializada anos depois, em abril de 1966, quando de uma viagem que fez aos Estados Unidos.
Segundo seus biógrafos, a faculdade mediúnica de Chico teria se manifestado pela primeira vez aos quatro anos de idade, quando ele respondeu ao pai sobre ciências, durante conversa com uma senhora sobre gravidez.
Ele dizia ver e ouvir os Espíritos e conversar com eles. Aos cinco anos conversava com a mãe, então desencarnada.
Na casa da madrinha, foi muito maltratado, chegando a levar garfadas na barriga. Aos sete anos de idade, saiu da casa da madrinha para voltar a morar com o pai, que havia casado segunda vez. Para ajudar no custeio das despesas da casa, o menino trabalhava e estudava em escola pública.
No ano de 1924 concluiu o curso primário e não voltou a estudar, dedicando-se inteiramente ao trabalho.
No mês de maio de 1927, participou de uma sessão espírita onde viu o Espírito de sua mãe, que lhe aconselhou ler as obras de Allan Kardec. Em junho ajudou a fundar o Centro Espírita Luiz Gonzaga e em julho iniciou os trabalhos na área da psicografia.
Em 1928, com 18 anos, começou a publicar suas primeiras mensagens psicografadas nos periódicos O Jornal, do Rio de Janeiro, e Almanaque de Notícias, de Portugal.
Chico Xavier desencarnou
no dia 30 de junho de 2002,
aos 92 anos de idade
Em 22 de maio de 1965 Chico Xavier e Waldo Vieira viajaram para Washington, Estados Unidos, a fim de divulgar o Espiritismo no exterior.
Com a ajuda de Salim Salomão Haddad, presidente do Christian Spirit Center, e sua mulher Phillis, lançaram ali o livro Ideal Espírita, numa versão para o idioma inglês.
Em 28 de julho de 1971 concedeu uma entrevista pela Rede Tupi de Televisão, Pinga Fogo com Chico Xavier, que se tornou célebre e foi, segundo diversos estudiosos do Espiritismo, decisiva para uma maior penetração da Doutrina Espírita nos veículos de comunicação.
Chico Xavier desencarnou no dia 30 de junho de 2002, aos 92 anos de idade, em decorrência de parada cardíaca.
Conforme relatos de amigos e parentes próximos, ele teria pedido a Deus para desencarnar em um dia em que os brasileiros estivessem felizes e o país em festa, para que ninguém ficasse triste com seu passamento. No dia do seu falecimento o Brasil festejava a conquista da Copa do Mundo de futebol de 2002 e a notícia surgiu quando a festa por essa conquista já havia começado.
Chico Xavier, pouco antes do seu falecimento, foi eleito, em concurso promovido pela Rede Globo em Minas Gerais, o Mineiro do Século XX, disputando com personalidades conhecidas como Santos Dumont e Juscelino Kubitschek.
Antes de seu falecimento, ele teria deixado uma espécie de código com pessoas de sua confiança para que pudessem ratificar sua presença quando houvesse um contato. Já nos aproximamos do oitavo ano de sua morte e nenhum contato foi confirmado até o momento. O fato é mencionado numa reportagem publicada pela revista Isto É de 26-2-2010, de que extraímos o trecho abaixo:
“É de esperar que quem dedicou a vida a ser porta-voz dos Espíritos mantenha alguma comunicação com os vivos depois de morto. Desde o falecimento de Chico Xavier, há quase oito anos, inúmeros médiuns apareceram dizendo-se receptores de mensagens enviadas por ele. Para driblar os aproveitadores, Chico combinou um código secreto com as três pessoas mais próximas dele – o filho adotivo, Eurípedes Higino dos Reis, o médico particular, Eurípedes Tahan Vieira, e Kátia Maria, grande amiga e acompanhante dele até a morte. Quando, e se houver comunicação, a mensagem será recebida por algum médium e conterá três informações. Os três continuam esperando. ‘Infelizmente, até hoje, nenhuma era dele’, diz o filho.”
A referida reportagem pode ser vista nesta página da internet: 
Registre-se que as mesmas pessoas confirmaram a informação acima no programa Globo Repórter exibido na noite de 26 de março de 2010 pela Rede Globo de Televisão, que o leitor pode ver e ouvir nesta página da internet:
Suas obras mediúnicas
venderam mais de 50 milhões
de exemplares em português
Chico Xavier psicografou mais de 400 livros, sendo 39 publicados após a morte, mas nunca admitiu ser o autor de nenhuma dessas obras.
Reproduzia apenas o que os Espíritos lhe ditavam e fazia questão de dizer que ele fora apenas o instrumento e que a obra era dos Espíritos.
 Por esse motivo, jamais aceitou o dinheiro arrecadado com a venda de seus livros, cujos direitos autorais cedeu graciosamente para organizações espíritas e instituições de caridade diversas, desde o primeiro livro.
Suas obras mediúnicas venderam mais de 50 milhões de exemplares em português, com traduções em inglês, espanhol, japonês, esperanto, italiano, russo, romeno, mandarim, sueco e braile. Mas ele psicografou, além dos livros, cerca de 10 mil cartas de pessoas recentemente falecidas destinadas aos seus familiares, fato que o tornou ainda mais conhecido e próximo dos brasileiros.
Seu primeiro livro, Parnaso de Além-Túmulo, com 256 poemas de autoria de poetas brasileiros e portugueses desencarnados, como João de Deus, Guerra Junqueiro, Olavo Bilac, Cruz e Sousa e Augusto dos Anjos, foi publicado pela primeira vez em 1932. Chico contava na época 22 anos de idade. O livro, como era de esperar, gerou muita polêmica nos círculos literários da época e constitui até hoje uma de suas obras mais relevantes.
O livro, porém, que atingiu até o momento a maior tiragem é Nosso Lar, publicado no início de 1944, atualmente com mais de 2 milhões de cópias vendidas, de autoria de André Luiz, um médico desencarnado cuja verdadeira identidade jamais foi por Chico revelada.
No próximo dia 2 de abril, data em que o médium completaria 100 anos, estreará nos cinemas do Brasil o filme Chico Xavier, baseado no livro biográfico As Vidas de Chico Xavier, do jornalista Marcel Souto Maior. Dirigido e produzido pelo cineasta Daniel Filho, Chico Xavier é retratado no filme pelos atores Matheus Costa, Ângelo Antonio e Nelson Xavier, respectivamente, em três fases de sua vida: de 1918 a 1922, 1931 a 1959 e 1969 a 1975. Todas as informações sobre o filme, os bastidores das filmagens, o elenco e parte técnica podem ser vistas no site http://www.chicoxavierofilme.com.br/site/.

O IMORTAL
JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
Diretor Responsável: Hugo Gonçalves - Ano 57- Nº 674
Abril de 2010 - PÁGINA 13 - limb@sercomtel.com.br

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma obra basilar de um vulto ímpar


O IMORTAL - PÁGINA 2

Editorial
Basilar significa: essencial, fundamental, básico, o que nasce ou está situado na base.
O edifício da Doutrina Espírita compõe-se de vários patamares. As fundações são o Novo Testamento.
A base é a Codificação Kardequiana, acrescida das chamadas obras basilares ou complementares.
As obras basilares são o resultado do esforço investigativo de autores encarnados, como Léon Denis, Gabriel Delanne e Ernesto Bozzano, chamados com justiça os clássicos do Espiritismo. Fundamentam e desenvolvem a obra de Kardec.
No Brasil podem-se incluir nesse rol pensadores e autores encarnados como Carlos Imbassahy, Yvonne A. Pereira, J. Herculano Pires e Cairbar Schutel, bem como autores desencarnados do nível de Bezerra de Menezes, Emmanuel, Joanna de Ângelis, André Luiz, Manoel Philomeno de Miranda, Meimei, Scheilla e tantos outros de competência indiscutível.
Divaldo P. Franco disse certa vez a um grupo de amigos que temos dado muita importância a determinadas obras de origem mediúnica que vêm surgindo em profusão, notadamente nos últimos anos, esquecendo-nos, porém, das obras basilares. Não que as obras espíritas sérias, em sua maioria da lavra mediúnica, não tenham importância.
Mas o que está em jogo são as novidades e, por que não dizer, a ânsia por novidades que acomete inúmeros leitores que se entregam a livros de conteúdo muitas vezes duvidoso.
As obras basilares são fundamentais na construção do pensamento espírita porque demonstram e reforçam, através de fatos positivos, os princípios doutrinários, desenvolvendo e até mesmo clareando as obras da Codificação Kardequiana, como se vê, em diversos momentos, na obra de Bozzano, Denis, Delanne e André Luiz.
*
Dentre os autores basilares radicados no Brasil, queremos destacar neste espaço um velho conhecido dos leitores deste jornal:
Cairbar Schutel, que na década de 30 do século passado já descrevia em minúcias o mundo espiritual, mais de 15 anos antes do surgimento de André Luiz e suas obras.
Em Médiuns e Mediunidade, livro de sua autoria que muitos desconhecem, Cairbar adianta ensinamentos que somente mais tarde viriam ao conhecimento do público por meio do livro Desobsessão, de André Luiz. Um exemplo é sua advertência quanto à iluminação do recinto onde se realizam as sessões mediúnicas e sua referência à lâmpada vermelha. Outro diz respeito à necessidade de estudo por parte de médiuns e experimentadores.
Nessa obra Cairbar nos ensina também algo que fora sugerido de leve em O Evangelho segundo o Espiritismo, ao mostrar que a mediunidade se desenvolve principalmente pela prática do bem, e não somente na mesa mediúnica, o que, diga-se de passagem, mais não é o que nos ensina a experiência espírita fundamentada na 1ª Carta de Paulo aos Coríntios.
Mas Cairbar Schutel não é basilar apenas por causa dos seus livros, dotados de uma singeleza digna de um Espírito superior. É basilar também no seu devotamento pela divulgação do Espiritismo por meio do rádio, em que foi pioneiro, do jornal e da revista, um zelo que seria diretamente responsável, por seu exemplo, pela própria criação e existência deste periódico. E é, ainda, basilar por seus inúmeros exemplos de homem de bem, íntegro e caridoso, que, além das palavras edificantes, demonstrava na prática o poder da fé espírita.
Cairbar Schutel, o homem que se dirigia ao público adulto e também falava às crianças, e não fugia às polêmicas necessárias, sem jamais, nessas disputas, desrespeitar a ninguém, é um exemplo a ser seguido, não causando surpresa alguma, para os que conhecem sua vida e sua obra, a feliz ideia de ter sido um dia cognominado de Espírita número 1 do Brasil, porque, de fato, ele assim o foi enquanto esteve entre nós.

Diretor Responsável: Hugo Gonçalves Ano 57 Nº 674 Abril de 2010