terça-feira, 17 de janeiro de 2012

O Porquê da Vida (Parte 10 e final)


Clássicos do Espiritismo

ANGÉLICA REIS
De Londrina

Concluímos neste número a publicação do texto condensado da obra O Porquê da Vida, de Léon Denis, publicada pela Editora da FEB. As páginas citadas referem-se à 14a edição, de 1987.
*
23. Para compreendermos o que se passa em torno de nós, é preciso, pois, que reunamos numa mesma concepção a lei de evolução e a das responsabilidades - a lei de causa e efeito - que faz com que a conseqüência dos atos recaia sobre aqueles que os praticam. (P. 113)
24. A ignorância dessas leis, dos deveres e das sanções que elas acarretam, entra por muito nas desgraças e sofrimentos da hora presente.
Se a Igreja os houvesse ensinado sempre, provavelmente não veríamos abrir-se-lhe sob os passos tão profundo abismo. (P. 113)
25. Pois bem; o que a Igreja não quer ou não pode fazer, o Espiritismo o fará. Ele abriu de par em par as portas do mundo invisível que a Igreja fechara há séculos, e, por elas, ondas de luz, tesouros de consolação e de esperança jorrarão cada vez mais sobre as aflições humanas. (P. 113)
26. Passada a tormenta, dissipar-se-ão as nuvens sombrias que nos escurecem o céu. Um límpido raio de sol brilhará sobre as ruínas acumuladas e uma era nova começará para a Humanidade. Grandes coisas então se realizarão. Almas poderosas reencarnarão entre nós para dar vigoroso impulso à ascensão geral. A consciência humana se desembaraçará das peias do materialismo.
A Filosofia se espiritualizará. (PP. 113 e 114)
27. No seu artigo de ataque ao Espiritismo, já referido antes, o padre Coubé faz a apologia do inferno, afirmando: “O Inferno não é em si mesmo uma crueldade, pois que a crueldade consiste em fazer sofrer um ente para gozar com o seu sofrimento, portanto, além do que ele merece e do que a ordem reclama”.  Responderemos a ele: “É sempre cruel infligir a um ser sofrimentos que não tenham a leni-los nenhuma esperança e que não comportam resultado algum”. (P. 116)
28. Em todo o Universo, o sofrimento é sobretudo um meio educativo e purificador. Considerando-o como uma expiação temporária, do ponto de vista da justiça divina e segundo o Espiritismo, ele se nos mostra como um processo de evolução, pois que, desenvolvendo em nós a sensibilidade, nos aumenta a vida, tornando-a mais intensa, ao passo que, com as penas eternas, o sofrimento não é mais do que uma baixa vingança, uma crueldade inútil. (P. 116)
29. Ora, Deus nada faz sem objetivo, e o seu objetivo é sempre grandioso, generoso, benéfico para suas criaturas. (P. 116)
30. Aliás, o padre Coubé não deve ignorar que a maioria dos teólogos hão renunciado à teoria das penas eternas e que já está reconhecido e firmado que a palavra hebréia que se traduziu por eterno não significa sem-fim, mas apenas longa duração. (P. 116)
31. A Terra, eis o purgatório verdadeiro, o inferno temporário.
O sofrimento do Espírito na vida do espaço não pode ser senão moral.
Resulta da ação da consciência que desperta imperiosa, mesmo que se trate das almas mais atrasadas. (P. 117)
32. Em meio de tantas obscuridades acumuladas pela Igreja no decurso dos séculos, não admira que a pobre Humanidade se tenha extraviado e erre, sem bússola, à mercê das tempestades da paixão, da dúvida, do desespero. (P. 117)
33. Com o Espiritismo, nada de afirmações sem provas, porque ele repousa sobre um conjunto de fatos e de testemunhos que, crescendo continuamente, lhe assegura o seu lugar na Ciência e lhe prepara esplêndido porvir. Todas as descobertas recentes da Física e da Química vieram confirmar suas experiências. (PP. 117 e 118)
34. O Espiritismo é, pois, ao mesmo tempo uma ciência e uma fé. Como fé, pertencemos ao Cristianismo, não a esse cristianismo desfigurado, apoucado, rebaixado pelo fanatismo, mas à Religião que une o homem a Deus em espírito e verdade. Não nos passa pela mente fundar um novo evangelho. O de Jesus nos basta plenamente. (P. 118)
35. Se um dia o grande ideal desejado pelos sábios e entrevisto por todos os inovadores vier a realizar-se pelo acordo entre a Ciência e a Fé, a Humanidade deverá isso ao Espiritismo, às suas investigações laboriosas, à sua filosofia consoladora e elevada. Graças a ele é que se cumprirá a bela profecia de Claude Bernard: “Virá o momento em que o sábio, o pensador, o poeta e o sacerdote falarão a mesma linguagem”. (P. 119)
36. Lançando um olhar de conjunto sobre a obra da Igreja Católica Romana, podemos dizer que, malgrado as suas manchas e sombras, é bela e grande a sua história.
Nas épocas de barbaria, foi ela o asilo do pensamento e das artes e, por séculos, a educadora do mundo. Mas a obra da Igreja teria sido incomparavelmente mais bela, mais eficaz, se houvesse ensinado sempre a verdade em toda a sua plenitude, se houvesse feito luz completa sobre o destino humano. (P. 119)
37. Se isso tivesse sido feito, não veríamos a indiferença, o ceticismo e o materialismo se espalharem, nem tantas revoltas, tantos desesperos e suicídios. E a Terra não assistiria a tantas paixões, tantas cobiças e tantos furores se desencadearem à volta dos que aqui residem. (P. 120)



O IMORTAL
JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
Diretor Responsável: Hugo Gonçalves Ano 53 Nº 623 Janeiro de 2006

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

De coração para coração

ASTOLFO OLEGÁRIO DE OLIVEIRA FILHO
De Londrina


Um apelo de Meimei em favor da criança




Quando lidamos com uma criança em tenra idade, dificilmente imaginamos para ela um futuro que não seja pelo menos igual ao nosso. Jamais nos passa pela mente que esse menino que hoje acalentamos, abraçamos e protegemos possa tornar-se amanhã um marginal perigoso.

As notícias veiculadas pela mídia mostram-nos, contudo, que tais coisas são possíveis e podem acontecer em grande número no mundo em que vivemos.

Não é difícil entender esse fato. Mundo de provas e expiações, a Terra não é, por  enquanto, morada de anjos. É uma escola, bendita como todas as escolas criadas por Deus, onde se matriculam criaturas necessitadas, pessoas difíceis, almas fracas e vacilantes, que necessitam por isso de forte estímulo para avançarem no caminho da evolução.

As páginas dos jornais retratam a vida de forma nua e crua.
Aqui, é o jovem imaturo que, movido por sentimentos insondáveis, matou pai e mãe, destruindo a paz do seu lar e a própria vida...

Ali, é o filho de um homem admirado em todo o mundo que, seduzido pelas ilusões do narcotráfico, trocou o lar pela penitenciária...

Acolá, é o garoto que, baleado pelos próprios comparsas, foi lançado no frescor da idade a uma cadeira de rodas, condenado à paraplegia...

Todos eles foram crianças um dia. Alguns tiveram vida abastada, moravam em mansões, ganhavam presentes caros.

Outros nem tanto, mas a verdade é que o seu presente e o seu futuro, pelo menos na atual existência, tornaram-se bem amargos.

*

Encontrava-me assim pensando na vida, quando me veio às mãos uma mensagem bastante conhecida escrita por Meimei pelas mãos de Chico Xavier, na qual a amorável educadora interpreta os sentimentos da criança e apela para nós – nós que somos pais, avós, professores e, com certeza, as únicas pessoas que podem auxiliá-la:


“Dizes que sou o futuro.
Não me desampares no presente.
Dizes que sou a esperança da paz.
Não me induzas à guerra.
Dizes que sou a promessa do
bem.
Não me confies ao mal.
Dizes que sou a luz dos teus
olhos.
Não me abandones às trevas.
Não espero somente o teu pão.
Dá-me luz e entendimento.
Não desejo tão-só a festa de teu
carinho.
Suplico-te amor com que me
eduques.
Não te rogo apenas brinquedos.
Peço-te bons exemplos e boas
palavras.
Não sou simples ornamento de
teu caminho.
Sou alguém que te bate à porta
em nome de Deus.
Ensina-me o trabalho e a humildade,
o devotamento e o perdão.
Compadece-te de mim e orientame
para o que seja bom e justo...
Corrige-me enquanto é tempo,
ainda que eu sofra.”

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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A metempsicose é um equívoco que o Espiritismo não admite


THIAGO BERNARDES
De Curitiba

A doutrina da metempsicose, embora constitua um equívoco, tem sua origem num fato verdadeiro, que é a passagem da alma, em seu processo evolutivo, pelos reinos inferiores da Natureza.
Nesse processo, a alma humana um dia passou pelo reino animal, mas a ele não volta mais, porque faz parte agora da humanidade – o chamado reino hominal – e não existe nenhuma possibilidade de reencarnar em corpos de criaturas pertencentes aos reinos inferiores àquele em que hoje se encontra.

Capa de Evolução em Dois Mundos, de
André Luiz, que focaliza com clareza o tema
evolução anímica

O Espírito só chega ao período de humanidade depois de se haver elaborado e individualizado nos diversos graus dos seres inferiores da Criação, como é ensinado na obra de Kardec, de Gabriel Delanne e de André Luiz.
Leia-se a respeito desse tema o livro Evolução em Dois Mundos, de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier e Waldo Vieira, bem como A Evolução Anímica, de Gabriel Delanne.

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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Só existe a reencarnação porque Deus é justo e misericordioso


THIAGO BERNARDES
De Curitiba

A reencarnação se baseia nos princípios da misericórdia e da justiça de Deus:
• Na misericórdia divina porque, assim como o bom pai deixa sempre uma porta aberta a seus filhos faltosos, facultando-lhes a reabilitação, também Deus – por intermédio das existências sucessivas – dá oportunidade para que os homens possam corrigir-se, evoluir e merecer o pleno gozo de uma felicidade duradoura.
• Na justiça divina porque os erros cometidos e os males infligidos ao próximo devem ser reparados em novas existências, a fim de que, experimentando os mesmos sofrimentos, os homens possam resgatar seus débitos e conquistar, assim, o direito de ser felizes.
Respondendo à questão 171 de “O Livro dos Espíritos” [Em que se funda a doutrina da reencarnação?], ensinaram os Espíritos superiores:
“Na justiça de Deus e na revelação, pois incessantemente repetimos: o bom pai deixa sempre aberta a seus filhos uma porta para o arrependimento. Não te diz a razão que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna todos aqueles de quem não dependeu o melhorarem-se?
Não são filhos de Deus todos os homens? Só entre os egoístas se encontram a iniqüidade, o ódio implacável e os castigos sem remissão.”
A unicidade das existências é, ao contrário, injusta e ilógica, pois não atende às sábias leis do progresso espiritual:
• É injusta porque boa parte dos erros humanos são resultantes da ignorância e numa única existência não nos é possível o resgate de nossos equívocos e falhas, principalmente quando o arrependimento nos sobrevém quase ao findar da existência. É preciso dar oportunidades ao arrependido, para que ele comprove sua sinceridade por meio das necessárias reparações.
• É ilógica porque não consegue explicar as gritantes diferenças de aptidões das criaturas humanas desde a infância, as idéias inatas e os instintos precoces, bons ou maus, independentemente do meio em que a pessoa tenha nascido.
A reencarnação nos
permite compreender as
diferenças sociais
As reencarnações representam para as criaturas imperfeitas valiosas oportunidades de resgate e de progresso espiritual.
Rejeitando-se a doutrina da reencarnação, perguntar-se-ia inutilmente por que certos homens possuem talento, sentimentos nobres, aspirações elevadas, enquanto muitos outros só tiveram em partilha tolices, paixões e instintos grosseiros.
A influência dos meios, a hereditariedade, as diferenças de educação – como todos sabem – não bastam para explicar essas e outras anomalias que deparamos no contexto social, porque temos visto membros de uma mesma família semelhantes pela carne e pelo sangue, e educados nos mesmos princípios, diferençarem em inúmeros pontos.
Personagens célebres e estimados têm descendido de pais obscuros destituídos até mesmo de valor moral, e o oposto também se tem visto, ou seja, filhos inteiramente depravados nascerem de pais honrados e respeitáveis.
Por que para uns vem a fortuna, a felicidade constante, e para outros a miséria, a desgraça inevitável? Por que a uns é concedida a força, a saúde, a beleza, enquanto outros se debatem com as doenças e a fealdade? Por que a inteligência e o gênio aqui, e acolá a imbecilidade? Por que existem raças tão diversas? E umas são tão atrasadas que parecem mais próximas da animalidade do que da humanidade! Por que pessoas nascem enfermas, cegas, com retardo mental, deficiências físicas ou deformidades morais, que parecem desmentir a bondade de Deus? Por que uns morrem ainda no berço, outros na mocidade, enquanto muitos só deixam o palco terreno na decrepitude?
Donde vêm os meninos prodígios e os superdotados, enquanto pessoas há que não deixam a mediocridade nem mesmo quando se tornam adultas?
Não se pode confundir
a reencarnação com
a metempsicose
Questões dessa ordem podem ser multiplicadas ao infinito, tratando não só de nossa situação presente, mas também do passado e do que nos aguarda no futuro.
Sem a admissão da reencarnação, não se compreende, por exemplo, que futuro estará reservado a um canibal logo que finda sua existência corporal. Se for para o céu, que é que fará ali? Se for condenado ao inferno, por que aplicar uma pena tão dura a um ser tão primitivo? E os bebês, para onde irão depois da morte corpórea? Crescerão em sua nova morada? Aprenderão a ler, progredirão, ou ficarão estacionados para sempre na condição de bebês?
A reencarnação é o instrumento que o Criador nos concede para atingirmos a meta da nossa evolução, do nosso progresso individual e do mundo em que vivemos. Não se deve, contudo, confundi-la com a metempsicose, porque a reencarnação da criatura humana só se dá na espécie humana, enquanto a doutrina da metempsicose, que o Espiritismo não aceita em nenhuma hipótese, admite a retrogradação, ou seja, a encarnação da alma humana em corpos de animais e vice-versa.
O Espiritismo é, no tocante a esse assunto, bastante preciso: o homem pode estacionar, mas nunca retroceder na sua caminhada rumo à perfeição. A doutrina da reencarnação, tal como ensinada pelo Espiritismo, se funda na marcha ascendente da Natureza e no progresso do homem, dentro de sua própria espécie.
Ele pode, numa existência futura, renascer em um meio mais humilde, mais singelo, menos dotado de recursos materiais, mas será sempre ele mesmo, com a inteligência e as virtudes adquiridas ao longo do tempo por seu Espírito.

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Minhas Vidas - baseado em fatos reais



Chico Xavier aos 34 anos


Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier (foto) e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever.
Terminando, disse, apenas, à família assustada: –
“Não fui eu. Alguém me empurrava a mão”.
Assim se inicia uma reportagem histórica assinada por David Nasser, uma das glórias do jornalismo brasileiro, publicada na revista “O Cruzeiro” de 12 de agosto de 1944, que recuperamos por intermédio da internet graças ao site www.memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro. Chico Xavier contava na ocasião 34 anos de idade e viveria até meados de 2002, ano em que desencarnou no mesmo dia em que a seleção do Brasil se sagrou pentacampeã de futebol.
Por ocasião da reportagem, fazia 12 anos que Chico havia publicado sua primeira obra, “Parnaso de Além Túmulo”, e o total de sua produção psicográfica não passava de 20 livros.
“Os Mensageiros”, de André Luiz, fora a última obra publicada até então, à qual se seguiram, de 1945 a 2002, quase 400 títulos. Iniciara-se então o célebre processo movido por familiares do escritor Humberto de Campos, que passou, a partir do ano seguinte, a valer-se de um pseudônimo (Irmão X) para assinar suas obras.
O processo, que trouxe muitas preocupações e acerbos sofrimentos ao médium de Pedro Leopoldo, fez com que seu nome e seu trabalho ganhassem dimensão nacional, numa época em que a televisão não fazia ainda parte dos meios de comunicação do País.

Chico Xavier, detetive do Além

Texto de David Nasser
e foto de Jean Manzon


Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte.
O moço se chamava Francisco Cândido Xavier (foto) e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever.
Terminando, disse, apenas, à família assustada: “Não fui eu. Alguém me empurrava a mão”.
Desce esse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossego e também o de sua cidade. Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço profeta.
Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fosse só isto. Era mais, muito mais.
Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens.
O representante da editora insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.
As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.
Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo.
Não nos interessa, embora pareça estranho, o médium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados – ou não psicografados – já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se ele é inocente ou culpado dirão os juízes.
Se ele é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.
Se os espíritos nos ouvem, eles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sobre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com este pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier. Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extraterrena mostrar-se absolutamente complicado. Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura: “É Chico Xavier um impostor ou não é?” E dirá: – “Não conseguiram desvendar o mistério!”
Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segredo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura. A frase de uma vizinha define melhor: – “Sabe, moço? O Chico é um amor”. Justamente desse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo.
Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.
O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é datilógrafo. O motorista não quer entrar. – “Aí, não. Até os zebus são atuados”. O diretor, Rômulo, está na horta, sozinho.
Ele nos dará, talvez, esclarecimentos sobre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu “não” é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dele, diretor, dar umas férias a Chico. – “O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico”. Apresentadas as despedidas, ele adverte: – “Não creio que será possível aos senhores um encontro com ele. Creio que vão esperar até sexta-feira”.
Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. –
“Onde fica a casa do Chico Xavier?”
O menino aponta a igreja. –
“Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família”. Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: ele.
Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Ele só podia ser ele. –
“Minha irmã foi curada por ele”.
Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vezes vem passar semanas com o médium.
– “Gosto de falar com ele. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, “O homem, esse desconhecido” e ele não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para ele. Seu único amor é o espiritismo”.
Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos.
Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.
Chico parece ser um bom sujeito.
Suas ações, mesmo fora do terreno religioso propriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos.
Vão dizer os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim.
Sei de um que não teve dúvida em abandonar a esposa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.
– “Na rua, entre seus irmãos de seita, – disse-me um dos filhos – ele se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.
Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa.
Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Somente o Chico vai lá, fazer companhia ao garoto, às vezes uma noite inteira.
– Chico!
– Que é meu senhor?
– Você lê muito?
– Não. Só revistas e jornais.
– O outro disse...
– Disse o quê?
– Nada.
Ele nos olha, surpreso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:
– Você, não pensa em se casar, Chico?
– Eu, casar?
(Dá uma gargalhada)
– Claro que não.
– Não namora?
– Nunca.
– Por quê?
– Não há razões.
Não gosto.
Tenho outras preocupações.
Ora, eu namorando... Tinha graça...
– Chico...
– Que é?
– É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?
– Ele disse pra eu ir à igreja discutir.
Não é lugar próprio.
– Você gosta do padre, Chico? E ele, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:
– Ué, eu gosto do padre, mas ele não gosta de mim.
– Chico...
– Que é?
– Onde estão suas mensagens?
– Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.
– Você vai ao Rio?
– Até agora, nada resolvemos.
Possivelmente, mandarei uma procuração.
Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde ele recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emmanuel, guia de Chico, lá estava.
Quem é Emmanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sobre a Terra, naqueles tempos de há dois mil anos.
– Ele dita?
– Vou psicografando as mensagens.
Há outros médiuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.
– Chico...
– Que é?
– Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?
– Homens célebres?
– Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?
– Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emmanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a Terra. Ele disse: – “A vitória da força é fictícia”.
O cavalheiro do Rio acode:
– E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Ele disse, categoricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.
Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal.
A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro.
Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas.
Depois, sua irmã solteira faz o café, que ele toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou.
Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina.
Volta para almoçar às onze horas.
O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão. Sua vida é frugal. – “Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados”.
– Peregrinos?
– Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consolo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite. –
“Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando...”
Evito atender, mesmo constrangido.
Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquele Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...
– Impossível a viagem de volta...
– Impossível? Não, não é impossível.
Eu voltarei a ser aquele sossegado Chico. Não tenha dúvida.
O repórter imagina, a essa altura, que ele acredita na possibilidade de suas comunicações com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de cor negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.
– “Trago para o senhor, Seu Chico...”
Ele segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Ele sorri e devolve o menino à mãe.
– Meu sobrinho – explica o profeta Chico – é nervoso e fica deste jeito. Sabe por quê? Ele sofre de paralisia infantil.
– Não tratam dele?
– Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, somente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.
Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei por que os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra contra a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Allan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.
– Quem toca pandeiro nesta casa?
Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é ele.
– Alguns espíritos?
O sorriso beatífico desaparece.
– Os espíritos não tocam pandeiro.
Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade.
Será orgulho pela celebridade que ele deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dele, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu subitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz. A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Ele não se importa. Não procura convencer ninguém à força de seu estranho e discutido poder.
Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. – “Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!” E não deu mais importância ao caso.
Até à volta, sereno Chico. De todas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio.
Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo:
– “Castigo, sim, nhô moço...
Antão, ele telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?”
Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: –
“Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?”
Ele, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que ele não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fosse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.
(Reportagem publicada originalmente em “O Cruzeiro” de 12 de agosto de 1944, recuperada via internet por meio do site www.memoriaviva.digi.com.br/ocruzeiro. Chico Xavier contava na ocasião 34 anos de idade. Sua desencarnação se deu em 2002, no dia em que o Brasil se sagrou pentacampeão de futebol ao vencer a seleção da Alemanha por 2 a 0.)

O IMORTAL
JORNAL DE DIVULGAÇÃO ESPÍRITA
Diretor Responsável: Hugo Gonçalves
Ano 53 Nº 623 Janeiro de 2006

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Ano novo, vida nova


Editorial

Na abertura de mais um ano em nossas vidas, queira o leitor amigo receber nossos votos de paz, de saúde e de prosperidade em todos os dias do ano. Quando dizemos “prosperidade”, entenda, porém, que não utilizamos esse termo no seu sentido usual, mas no sentido verdadeiro pelo qual ele deve ser entendido – prosperidade real e efetiva, que advém da consecução do programa trazido para a presente existência.
Como sabe o leitor, nem sempre as pessoas realizam no plano corpóreo o que imaginavam fazer antes do mergulho na carne.
Muitas existências na Terra compõem o que Herculano Pires chama de círculo vicioso da reencarnação.
O desenvolvimento do ser não é contínuo, mas descontínuo. Em cada existência terrena o indivíduo desenvolve certas potencialidades, mas a lei de inércia o retém numa posição determinada pelos limites da própria cultura em que se desenvolveu.
Com a morte corporal, explica Herculano em seu livro “Pedagogia Espírita”, o ser volta ao mundo espiritual e tem uma nova existência nesse mundo, onde suas percepções se ampliam permitindo-lhe compreender que sua perfectibilidade não tem limites. Voltando então a nova encarnação, pode reencetar com mais eficiência o desenvolvimento de sua perfectibilidade, mas, se não receber na vida terrena os estímulos necessários, poderá sentir-se novamente preso à condição da vida anterior na Terra, estacionando numa repetição de estágio. É isso que se chama círculo vicioso da reencarnação.
Ao leitor que duvida desse pensamento, propomos que considere a estatística seguinte.
Em 82 anos de existência do instituto “Almas Irmãs”, um educandário existente no Plano Espiritual, a que André Luiz se refere em seu livro “Sexo e Destino”, obra publicada em 1963, de cada 100 alunos desencarnados necessitados de reeducação sexual que procuraram aplicar na existência corpórea os ensinamentos ali colhidos, eis o resultado:
• 34 fracassaram, retornando à vida espiritual onerados com novas dívidas
• 26 melhoraram ligeiramente, embora imperfeitamente
• 22 registraram alguma melhora
• 18, somente dezoito, venceram nos compromissos da reencarnação.
Os desafios da existência corpórea não são, como se vê, algo que se vence facilmente.
Para isso é preciso dedicação, oração, vigilância e uma busca permanente da meta a ser alcançada, que é a perfeição, um objetivo possível e, segundo Jesus, factível. Afinal, não foi ele quem disse: “Vós sois deuses e tudo o que faço podereis fazer também e muito mais”?





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JANEIRO/2006


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